Honeysuckle Æons marca o regresso de David Tibet aos discos com o projecto Current 93. Finda que está a triologia composta pelos trabalhos Black Ships Ate The Sky, Aleph At Hallucinatory Mountain, Baalstorm; Sing Omega, Tibet lança-se agora por novos caminhos sonoros. Onde antes imperava a grandiloquência dos arranjos, agora reina um espaço mais introspectivo, com a voz de Tibet a ganhar mais relevo num mar de silêncio. A estrutura musical é agora aparentemente mais pura mas que denota uma extraordinária capacidade de cingir a melodia ao estritamente necessário.
Se no tema de abertura ainda denotamos os recentes devaneios de Tibet, com piano rodeado de theremins e a voz em vibrato triste, nos temas seguintes o álbum afirma em toda a sua plenitude a nova abordagem de Tibet. Os temas Sunflower e Lily, são porventura os melhores exemplos da nova linha orientadora, com Tibet a esforçar para suportar a repetição interminável numa melodia reduzida ao esqueleto. É um risco assumido, quando se passa de paisagens saturadas para melodias nuas, sendo a voz o ponto central e de ancoragem de toda a música.
Honeysuckle Æons vive essencialmente à luz das palavras, ricas em ambiguidade, impenetráveis, negras e cortantes, saídas da mente obscura de Tibet. Ao contrário dos álbuns anteriores em que tudo surgia numa incessante rapidez, aqui tudo é nos revelado no meio do silêncio, pautado pelo som macabro dos theremines. Se nas primeiras audições parece estarmos perante um disco menor dos Current 93, não poderíamos estar mais longe da verdade. Este é um disco para ser absorvido com tempo, numa sala escura, onde cada palavra e cada infecção do texto deve ser ouvida e sentida em silêncio.
Passou apenas um ano entre a edição de Aleph at Hallucinatory Mountain e do novo trabalho de David Tibet, Baalstorm, Omega Sing. No entanto, os dois registos não podiam ser mais diferentes entre si. Baalstorm, Omega Sing apresenta um som mais delicado, com fluxos sonoros dos violoncelos e dos pianos convidando às divagações das profecias de Tibet, ao contrário do álbum anterior que vivia à custa de guitarras ásperas e de uma melodia inquieta. O novo disco, no seu todo desenrola-se com uma grande suavidade, entre a voz arrastada de Tibet e os instrumentos de corda, dando liberdade a que todos divaguem e evoluam.
Numa primeira audição é difícil de ter a percepção da intensidade e do alcance das palavras, e da complexidade sonora, sendo necessária uma abordagem mais atenta. December 1971 e Passenger Aleph in Name são exemplos perfeitos da sonoridade deste disco, conseguindo com mestria um encontro perfeito entre a voz, as cordas e a electrónica. Contudo, nos dois últimos temas, alguma da beleza do disco perde-se, dando a sensação de que o labirinto sonoro é algo exessivo.
Chegou em Outubro às livrarias Krautrock, Cosmic Rock and its legacy editado pela Black Dog Publisching. Há 15 anos, Julian Cope editou KrautrockSampler, um dos mais importantes livros sobre a música alemã pós 1967. Este novo livro traz-nos uma visão mais abrangente dessa época, apresentando o enquadramento sócio-político da Alemanha pós-guerra.
No final dos anos 60, a Alemanha vivia um período conturbado, comunas surgiam por todo o país, e consigo, uma liberdade criativa em contraste com a tradição opressora. Dos Amon Düül aos Popol Vuh, passando por Conrad Schnitzler, Kraftwerk e muitos outros, Krautrock, Cosmic Rock and its legacy traça a história de um período único na história da música. O livro é ilustrado com fotografias de concertos e conta com textos de Michel Faber, Erik Davis, David Stubbs, e contributos de Gavin Russom (Delia and Gavin/Black Meteoric Star), Plastic Crimewave, Circle, Stephen Thrower (Coil/Cyclobe), and Ann Shenton (Add N to (X), than Steven Stapleton dos Nurse With Wound e David Tibet/Current 93.
A mitologia de David Tibet cresce no sentido esotérico a cada novo álbum, uma mistura da sua interna imaginação do terror bíblico. A sua música reflecte isso mesmo, do noise ao industrial, passando psicadélico e mesmo pelo post-rock, nunca se fixando num estilo, antes, moldando os diferentes estilos em peças com características únicas. Alepth At Hallucinatory Moutain, é, mais uma vez, o espelho da personalidade de Tibet, uma amálgama de sonoridades compostas em camadas, caminhando novamente no sentido da complexidade extrema, provocando tensão e atenção através da manipulação dos sons sobrepostos. É impossível o ouvinte permanecer indiferente à dimensão sonora deste disco, mesmo e quando não consegue abarcar toda a complexidade da estrutura da composição. O disco no seu todo funciona, na realidade, como uma peça única, não existindo verdadeiramente quebras na linearidade do conceito. E, mesmo, se em algumas ocasiões parece existir uma pausa na intensidade dramática da música, ela na verdade encontra-se deslocada propositadamente para apanhar o ouvinte desprevenido e assim o puder manipular.
Mas mais importante do que a música, que é sem duvida brilhante a todos os níveis, o verdadeiro génio de Tibet, reside na mensagem escrita. A esse nível, este álbum é, sem duvida um dos mais intensos que ouvi este ano. Definitivamente, este não é um disco para ser ouvido no verão, com tempo quente e praia. A escuridão fica-lhe bem, pensava eu, como em quase todos os seus trabalhos. “Almost in the begininning was the murderer”, as palavras iniciais do tema de abertura, são ditas no sentido de abrir as portas do mundo profundo e negro de Tibet, onde habitam as duvidas e desejos, o sublime e o medo, o racional e o terror da própria existência.
A paisagem lírica de Tibet, mítica, bíblica e onírica, proporciona por si só, diversas interpretações e, seguramente, permite ao ouvinte vogar em pensamentos, por vezes dispares dos intencionados pelo autor. O real objecto encontra-se por de trás das palavras não pronunciadas, escondidas na aridez da paisagem sonora. A cada nova porta aberta, outras se fecham em par, e paredes de refúgio são erguidas em altura.
Num álbum épico como este, é virtualmente impossível de sintetizar todas as ideias e conceitos, e sobretudo, todos pormenores que se encontram na música e nas letras de Tibet. É um trabalho impressionante desde os primeiros momentos até aos sons finais. Em todas as audições que efectuei deste disco, retive a sensação de exaustão mental, tal a intensidade do registo. Tibet é um ente criativo com a habilidade de manipular as emoções do ouvinte, e sentimo-nos bem por isso…
Está quase quase a chegar o novo álbum de David Tibet, aka Current 93, Aleph at Hallucinatory Mountain, e preparem-se para mais uma descida visceral aos confins do inferno da mente de Tibet. Fica aqui um aperitivo, Not Because the Fox Barks, o sexto tema do novo disco.
Black Ships at the Sky é um daqueles discos de David Tibet, aka Current 93, que ninguém fica indiferente. Tem sido um longo caminho percorrido por Tibet, desde Nature Unveiled com os seus drones primitivos, passando pelo folk apocalíptico de Swastikas for Nody, até ao épico orquestral Thunder Perfect Mind, expoente máximo do “maximalismo” sonoro, a sua obra crescia exponencialmente em complexidade, percorrendo os trilhos da complexidade e das ideias ambiciosas. Depois de Thunder Perfect Mind, o número de elementos veio a decrescer e descartando as camadas sonoras. Álbum após álbum o minimalismo musical ganhou consistência, apresentando menos instrumentistas e construções musicais mais simples. Com esta simplicidade, Tibet privilegiou os seus textos e ideias, sendo a música um mero veículo para as transmitir. Soft Black Stars foi o culminar do trilho minimalista onde Tibet pouco mais faz do que declamar poesia acompanhado de piano. Com o sucesso alcançado, Tibet voltou a ganhar confiança para voltar a elaborar mais a composição mas dando ainda mais ênfase na letra.
Black Ships Ate the Sky é um épico ao nível de Thunder Perfect Mind, com um conjunto de músicos novamente alargado. Destes, destacam-se os nomes de Michael Cashmore na guitarra, um colaborador de David Tibet de longa data, que tocou em metade do disco; Bem Chasny (sim, o do Six Organs of Admittance) que tocou na segunda metade do álbum; John Contreras no violoncelo; Antony no piano; William Breeze (dos Coil e dos Psychic Tv) na viola; William Basinski nas electrónicas e Stephen Stapleton na manipulação sonora. Melhor companhia deve ser difícil de se arranjar.
O álbum conta com 21 temas e 75 minutos de duração, mas parece apenas ter 10 ou 15, tal é a intensidade musical do disco. O ouvinte é agarrado logo no primeiro tema, Idumaea, uma velha peça apocalíptica escrita por Charles Wesley, e só volta a respirar após o último folgo inalado por Tibet.
O título, Black Ships ate the Sky, não deixa de ser curioso, mais parecendo ter saído de um romance de Philip K. Dick, mas que com David Tibet, parece ganhar uma aura de misticismo de caris pastoral que pelo meio se transforma num tormento apocalíptico. Baseado num sonho recorrente em que naves negras invadem o céu, na verdade actua com catalítico da chegada do Anti-Cristo e a segunda chegada de Cristo à terra. Apesar do álbum apresentar uma mensagem muito pessoal, a forma como é apresentado e a estrutura individual de cada tema, faz de Black Ships… um objecto acessível e aberto a diversas interpretações. É alias essa (na minha opinião) a grande riqueza do trabalho de Tibet e deste disco. Musicalmente, Tibet assumiu um risco que poucos ousariam correr, ao construir nove versões diferentes de um mesmo tema. Mas verdade seja dita, essa receita funciona e serve de âncora para todo o álbum. Os arranjos, que vão desde os simples sons de guitarra até ás orquestrações mais complexas, a coesão conseguida é única e cativante, deixando o ouvinte constantemente suspenso nas palavras bem como nos sons.
Ponto de escuta:
This Autistic Imperium Is Nihil Reich
This autistic Imperium With paint and spick and span Is Nihil Reich Whilst wine calls meat My friend at teatime Wonders at the weight Of the armies that wait For Golden Caesar Have face of Beast With lips of long love wasted In Trojan seas I called God on the phone Just yesterday and spoke to Breathface He told me death arises for Bloodface Doctor without possibilities of crime (Let's call that "pixie time") To make light of the shouting in my head I want to have lunch with the Umbrella Ladies I want to make love with the Umbrella Ladies Who inhabit the stealing time I got this from the night-owl singing "Policeman, policeman, is there anyone there?" If the Great Turk eats Empire Well is that countdown? Or just Twinkletoes eating his face? Whilst the wicked incense batters the church Outside the church Outside the church walls Bloodface waits He is twisting time And selling sweets to sweethearts Who have painted mountains for money They sell their bodies to the Ice Cream Queens Autistic Imperium You have arisen as a way of cutting the Centre Out of this world Christ made a dance Which turned into a trance A thousand pick-axes are stored in Babylon Destroyer? Nihil Reich? Empty as the face I saw when I awake with eyes as big as bugs God made a nothing of nothing He called the swans to roost in the ruins Of fast-food lakes And I say like Lazarus I arise in time For tea and toast and judgement And all that stuff that rests in the land of Jack and Jill